Inspire Fundo

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Karam Valdo  //  

Jan 12 / 5:37am

O tempo de Cronos e o espaço da eternidade*

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6h58. Meu corpo acorda depois de alguns minutos do despertador tocar.

 

Lembro-me vagamente de um sonho que acabei de ter e levanto. Levanto porque tinha que estar pronto às 8h, para chegar ao trabalho às 9h e cumprir a agenda normal e esperada para o dia 11/01/2011.

Passei boa parte do dia pensando numa imagem mitológica que refletisse o tempo dos compromissos, a vida material que tem que ser conquistada (ou perdida) a cada minuto. Lembrei-me de Cronos. 

Na mitologia grega, Cronos era filho de Gaia e de Urano. Ele matou seu pai para tomar o controle do universo. Casou-se com a irmã Rhea. Cronos tinha medo de ser destronado por um de seus filhos, assim como fez com seu pai, e por isso engolia-os, um a um, assim que vinham ao mundo. Um dia Rhea, se cansou dessa história de devorar os bebês, escondeu seu sexto filho, Zeus, na ilha de Creta e lhe deu uma pedra que foi engolida em seu lugar. Zeus cresceu e cumpriu seu destino, matando Cronos e fazendo-o vomitar seus irmãos Poseidom, Hades, Hera, Hestia e Demetrio e deu início a uma nova era. 

Não é difícil encontrar hoje que se sente engolido pelo tempo e por compromissos que no fundo no fundo não desejam fazer. Veja essa história do homem que já não fazia mais nada porque queria arrumar sempre a papelada. Mas o que a história de Cronos nos traz é que há um Zeus, além desse estado racional apegado ao tempo, que busca libertar a criatividade. Entre um minuto e outro, procuro meios para dar chances ao meu Zeus interior buscar o reequilíbrio do espaço. Busco viver a eternidade no dia a dia.

Sempre pensei que a eternidade era um tempo bem longo. Ao ler Joseph Campbell aprendi que a eternidade é um estado de espírito que se conquista se desconectando do mundo e se conectando ao nosso inconsciente. Eternidade não é um tempo bem grande, mas um estado psicológico além do tempo, que se alcança na meditação, na oração, na arte ou quando a gente cria ou faz o que gosta de verdade.

A criação só se dá em contato com o inconsciente e longe da vida da seguridade do nosso lado racional, tão treinado a não dormir nos dias de hoje. Para criar é preciso destruir o que está velho e isso nos gera o receio do novo e é isso que desperta a desconfiança do nosso Cronos interno. Diz C. G. Jung  que “a criação é ao mesmo tempo destruição e construção”.

Uma das saídas para criar um reequilíbrio nesse nosso tempo liderado por Cronos é separar pelo menos uma hora por dia que será o nosso tempo Sagrado. Nesta hora você irá fazer o que você quiser, vai ler um bom livro que não tem nada a ver com seu trabalho, vai escutar aquela música que você gosta e dançar no chuveiro, desenhar, dar um espaço para sua vida interna inundar sua consicência. A diferença dessa horinha que, de início, parece uma coisa tão simples, vai fazer uma grande diferença ao longo de seu dia e, espero, de sua vida.

 

23h17. Hora de entregar este texto, antes que bata a meia noite.

 

*"Escrevi esse texto para o projeto 3meia5 do meu amigo @ivnm. Com o fim do projeto o site saiu fora do ar e eu decidi manter esse meu texto vivo por aqui. Ontem o texto fez aniversário de um ano. O projeto pretendia trazer a descrição de um dia na vida de 365 autores."