labirinto do cotidiano
Li este artigo três ou quatro vezes na minha vida. Em momentos diferentes, da primeira vez, em 2005, até a última, antes de ontem, ele me deu impluso para movimentar meu cotidiano e encarar as frustrações da minha sombra escondidas nos cantinhos do dia a dia. Recomendo a leitura numa hora tranquila.
A papelada fatal Meu finado tio Aurélio cultivava uma obsessão curiosa: "A papelada!". Não adiantava convidá-lo para viajar, passear no fim de semana ou chorar em algum velório, pois ele não arredava o pé de casa. O motivo da ausência era sempre o mesmo: arrumar infinitos documentos, zelar por negócios pessoais ou dar conta das solicitações cotidianas. Para encurtar as desculpas, ele levantava as mãos para os céus e, como se cumprisse os desígnos do Criador, justificava: "A papelada!". Aurélio teve morte súbta (...) Se isso intrigou meus quinze anos, o problema tomou ares epidêmicos quando o avô de um amigo começou a usar a mensa terminologia. Seu caso foi tão grave que, internado, prestes a sofrer a cirurgia durante a qual faleceu, ele repetia para quem quer que o visitasse: "Preciso sair daqui, a coisa deve estar uma bagunça!". Tomando fôlego, fazia a pergunta obstinada: "E como vai a papelada?". Debilitado, cardíaco e diabético, o "nono" mostrava-se mais preocupado com o seu arquivo que com a vida eterna. Ao que parece ninguém se safa da propaganda. É incrível como ninharias nos aprisionam e os pequenos eventos nos derrubam, moendo nossa paciência: filano já ligou três vezes, o trânsito parou, o condomínio venceu, o filme está saindo de cartaz, olha que o banco fecha, e se o temporal me pega? Parece óbvio, mas esquecemos que estas solicitações são intermináveis e nos massacram sempre um pouco mais. Tudo se passa como se o prazer e a paz estivessem logo ali. Isto é, assim que eu solucionar este último probleminha... A desgraça é que nunca se resolve este derradeiro empecilhozinho. Talvez por isso, filósofos e religiosos vêm martelando, há séculos, o perígo de se ficar preso nas malhas do cotidiano. (...) Adler, discipulo de Jung, discordava desse conformismo e afirma que a vida sem sentido é um dos sintomas da neurose. Vivendo longe de si mesmo, o sujeito culpa a cidade grande pela sua ansiedade, permanece no trabálho insuportável "pelos filhos" e, sem grandes reflexões, agarra-se ao cotidiano como um marisco à sua rocha. Por isso amigo, quando começar a comer meio bolo de chocolate ansiosamente ou brigar no trânsito como um viking, é hora de perguntar por quê. Viver por viver tem seu charme, já foi tema de música e cinema, mas pode ser uma experiência dolorosa. Principalmente quando a velhice chega e percebe-se que gastamos nosso tempo numa guerra sem causa, como um obsoleto vigia de arquivo morto. (BLOISE, Paulo V. Papelada Fatal. Jornal da Tarde, 27 abr. 1996 Caderno Variedades, p 3C. in Jung, O homem criativo, Luiz Paulo Grimberg).
