Inspire Fundo

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Karam Valdo  //  

Jan 16 / 7:31pm

Chuvas e o sacrifício humano

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“A terra não pertence ao homem  branco; o homem branco é que pertence à terra. Disso nós temos a certeza. Todas as coisas estão relacionadas como o sangue que une uma família. Tudo está associado. O que fere a terra fere também aos filhos da terra.” Cacique Seattle, da tribo Suquamish, nos EUA - 1854

 

Zapeando por entre notícias da tragédia causada pelas chuvas encontrei um programa sobre Tikal, uma cidade Maia que abrigou até 50 mil pessoas em seu apogeu, 600 a 900 d. C. Nas baixadas das florestas tropicais da península de Yucatán, levantava-se uma cidade de cor escarlate, com pomposas pirâmides cuidadosamente construídas em sintonia com o movimento dos astros.

Por viver do ventre da densa mata, Tikal padecia de um problema básico, a falta de reservatórios naturais de água potável. Dizem os arqueólogos que, usando tecnologias finas de pequenos declives no solo das ruas para captação da água da chuva e aproveitamento total deste bem, a cidade pode se tornar um dos mais importantes centros políticos e religiosos do mundo Maia.

O tempo ali era dividido em dois, estações de chuva e estações secas. Nas estações secas, os Maias conviviam com um ritual insuportável em nossa sociedade. Sacrifícios humanos ao deus da chuva eram realizados num poço de água potável perto dali. A água tornava-se um altar onde cabeças decapitadas foram conservadas ali, para nos contar esta história.

Mas as caveiras materialização desse mito insuportável, escondem algo que não conseguimos entender direito. Não estudo a civilização Maia, mas posso imaginar que essas as pessoas que participavam desse ritual seguiam para a morte vestidas de deuses e com um sorriso sélfico nos lábios. O sacrifício, para a civilização antiga, era uma honra... a honra de materializar o mito da ressurreição. No caso desse ritual Maia, a oferenda humana era um pedido de chuva.

(Para quem se interessa sobre o assunto, assistam o Poder do Mito, entrevista com Joseph Campbell – capítulo Sacrifício e Felicidade.)

Ao taxarmos de cruéis e débeis, nos esquecemos de considerar que os Maias, assim como muitas civilizações antigas, tinham uma vida muito mais íntima com a natureza do que a nossa sociedade. Toda a vida era orientada pelas estações, e mitos eram criados para tornar a terra sagrada. O ciclo era protegido. Uma vida era sacralizada para mantê-lo.  

Quantas vidas não sacrificamos nesta tragédia que abate o Brasil, por não sermos mais íntimos da natureza? Tomamos propriedade da terra e, apesar de termos a ciência ao nosso favor, inundamos com construções as terras esquadrinhadas em lotes – irregulares ou não -, em qualquer lugar. O resultado é uma fúria natural, que não nos deixa nem a chance de buscarmos um culpado para tanta tragédia.

A energia da natureza parece ser tão violenta quanto a força com a qual ignoramos que essa sociedade de consumo sem limites nos levará a destruição. Será que não está na hora de voltarmos alguns anos e nos espelharmos na relação que os antigos tinham com a natureza?

Com muito saber científico, e sem deixar nossa porção animal (já que estamos encarnados aqui) somos capazes de trilhar o caminho da evolução coletiva, que hoje carece de uma visão espiritual e de contato íntimo com a natureza.  Somos criativos o suficiente para sermos capazes de fazer com que a sustentabilidade supere o status de peça de marketing para salvar nossas próprias vidas.

Um pouco de silencio agora. Uma oração para quem perdeu a vida no correr das águas.

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