Há certa percepção entre nós, humanos, de que a concretização de um desejo não depende somente da força de vontade. Há uma parcela parte do esforço que deve ser desempenhado por uma força criadora que é autônoma, funciona conforme uma vontade superior à vida individual, um destino que não nos compete interferir. Resta-nos pedir para que os caminhos que nós imaginamos seja traçado ao nosso desejo, mas sem garantias de que isso ocorra.
Por menos espiritual que uma pessoa seja, ela há de concordar que o homem não dispõe do controle de tudo. Ao final, é dependente dos elementos da própria natureza, de uma atmosfera, da água, alimentos e da própria vida que pode se encerrar com um terremoto ou uma enchente.
A parte dos céticos, as pessoas que se dedicaram à vida espiritual criaram belíssimas imagens para Deuses e forças ocultas com a capacidade de abrir caminhos, ampliar os horizontes para que a pessoa que pede, em sua humildade, veja o que ainda não lhe foi revelado ou que passou despercebido.
Tive a ideia deste post ao pedir para que meus caminhos se abram – sim, estou precisando! – e logo me lembrei de uma das divindades mais bonitas e ricas que eu conheço: o Ganesha.
É uma imagem muito difundida e conhecida, o Deus hindu com cabeça de elefante. Ele é a divindade que concentra a sabedoria, abre os caminhos e os olhos dos seus devotos. Une as potências de seu pai Shiva (divindade da destruição criativa) e de sua mãe Pavarti (shakti feminino de Shiva – mãe do mundo que atrai os conceitos de perseverança, disciplina e renúncia para alcançar conhecimento). Ganesha é o removedor de obstáculos e tem como veículo um rato. (Adoraria que algum leitor mais sabido em hinduísmo ampliasse o significado deste vahana).
Pensando sobre Ganesha, procurei uma imagem na cultura cristã-católica que fizesse um paralelo na função de abrir os caminhos. Pensei no Deus de Jacob e Abraão (que os cristãos dividem com os judeus). Ele ajudou o profeta Moises a guiar o povo eleito à terra prometida, para isso, dividiu o Mar Vermelho ao meio, abriu um caminho inexistente que serviu como saída do Egito. Em linguagem simbólica, o Deus do Velho Testamento se mostra capaz de criar caminhos inimagináveis para o devoto que nele confia. Uma antiga lenda judaica conta que Deus só abriu o caminho pelo mar depois que Moises deu o primeiro passo em direção às águas.
Mas como o Deus do Velho Testamento é mais reconhecido pela sua impetuosidade do que por sua capacidade de abrir os caminhos da humanidade, me lembrei de uma figura que me é muito cara na religião católica – Maria. Lembro-me de meu pai me ensinando o que era quase um mantra, - “Maria, passa na frente!” - ele dizia diante de alguma dificuldade. Maria reúne essa qualidade por ter acreditado sem provas no espírito de Deus que lhe gerou o Filho do Homem. Maria abriu os caminhos humanos de Jesus, que se tornou o Cristo através também do que aprendeu com ela. É o sagrado feminino cristão.
Outra forma de mitologia religiosa que tem despertado a minha atenção nos últimos tempos é a yorubá, dos Orixás... Umbanda e Candomblé. Procurei num belo livro que tenho “Mitologia dos Orixás" de Reginaldo Prandi, um orixá que trouxesse a habilidade de abrir os caminhos humanos. Logo na introdução encontramos a história de Exu, o orixá mensageiro. Demonizado pela intolerância religiosa, Exu ganhou a cara do demônio, mas tradicionalmente está bem longe disso e mais próximo de Hermes da mitologia grega. Exu é o mensageiro, o primeiro a ser homenageado em um terreiro, porque sem ele, não existe comunicação com os outros orixás. Exu ganhou de Olodumare o título de senhor das encruzilhadas, e o que é a encruzilhada se não um cruzar de caminhos, um ponto onde o andante pode ter a dúvida, - “para qual caminho seguir?” No mundo dos orixás, quem abre caminhos é também Ogum, o ferreiro que manipula os metais, orixá da agricultura e da guerra. No sincretismo com a religião cristã, Ogum é São Jorge Guerreiro, que com as suas roupas e armas, protege seus devotos nos tortuosos caminhos que eles devem percorrer.
Para os Bahá’is, um Deus único é a ligação direta com o homem, não existem sacerdotes ou pessoas santas além das figuras principais que criaram a religião e os Mensageiros de Deus que criaram as religiões do passado. As dificuldades, para os Bahá’is, são um meio de provação, uma necessidade. Elas são os próprios caminhos abertos por Deus para nos tornar melhores. Para que o crente possa superá-lo, pede-se a remoção das dificuldades em orações específicas.
Os budistas têm um símbolo muito íntimo com o caminho. Buda, o iluminado, apenas aponta a direção que se deve seguir para deixar a Sansara (ciclo de morte e renascimento, imerso no sofrimento da vida que é inevitável). A direção que Ele aponta é o caminho do meio. Joseph Campbell fala de imagens de Buda em que ele está sentado mostrando um mudra (aquele gesto simbólico com os dedos das mãos) que transmite confiança - “não, temas” - e, um pouco antes nas duas laterais, se posicionam dois guerreiros com espadas, prontos para dilacerar. Campbell interpreta esta imagem da mesma maneira que os arcanjos com espadas flamejantes nas portas do paraíso, na mitologia cristã, “para se chegar a iluminação a de se enfrentar os desejos do ego”.
As imagens da mitologia religiosa para abertura de caminhos são inúmeras. Mas o que podemos extrair dessa beleza simbólica é que, a certa altura da vida, temos que entregar os caminhos a algo maior que nosso eu. Não temos o controle de tudo. Seja qual for a metáfora que embebe essa força que nos é superior, devemos humildemente confiar nos processos que a vida desenrola. E, invariavelmente, para que os caminhos se abram, é nos exigido o abandono (ou a morte) de alguns aspectos que nem sempre estamos prontos para abandonar.