Ame como a ti mesmo
Esse vídeo sobre uma pesquisa com a reação de crianças que recebem um prato com um sanduíche e outro vazio me fez pensar. Se o estudo for sério, nos faz olhar com cautela quem ainda pensa pela máxima de Thomas Hobbes, "O homem é o lobo do homem".
Para ficar dentro de uma metáfora animal, o homem seria o cão do homem? Teria o homem uma predisposição inata à lealdade e a sobreviência do próximo? Em minha opinião, sim, mesmo com tantos exemplos contrários.
É daí viria um estado psicológico de profunda identificação que sentimos por outros seres humanos e outros seres vivos, sabemos – bem lá no fundo – que na verdade, somos todos um. É algo parecido com o conceito de Participação Mística (Participation Mystique) termo que C. G. Jung emprestou e ampliou do antropólogo Lévy-Brühl que determina aquele estado psicológico em que a pessoa não se diferencia do objeto - o que ocorre nos rituais primitivos. Muitas vezes, noto que um estado de impessoalidade toma minha consciência.
É possível reconhecer este estado psicológico com mais clareza nas situações-limite, em que laboratório nenhum será capaz de recriar. Quando, por exemplo, ouvimos notícias de pessoas que se arriscaram seriamente por outras pessoas, muitas vezes desconhecidos. Que força é essa que nos faz passar por cima de uma das maiores leis da natureza, o instinto de sobrevivência, para salvar a vida do outro, colocando a nossa própria vida em risco?
Para continuar essa reflexão, recomendo o trecho abaixo do livro, O Poder do Mito, onde o autor, Joseph Campbell, tece um comentário sobre a associação psicológica profunda entre viver e morrer:
“CAMPBELL: Há um magnífico ensaio de Schopenhauer em que ele pergunta como um ser humano pode participar tão intensamente do perigo ou da dor que aflige o outro a ponto de, sem pensar, espontaneamente, chegar a sacrificar a própria vida por esse outro. Como pode acontecer a brusca anulação daquilo que normalmente concebemos como a primeira lei da natureza, a autopreservação?
No Havaí, há cerca de quatro ou cinco anos, deu se um evento extraordinário que ilustra bem a questão. Há um lugar lá chamado Pali, onde os ventos do norte passam rápidos através de uma grande cadeia de montanhas. As pessoas gostam de ir lá em cima, para ver seus cabelos agitados ou, às vezes, para cometer suicídio – você sabe, algo como saltar da Golden Gate Bridge.
Um dia, dois policiais dirigiam pela estrada de Pali quando viram, encostado à amurada que protege os carros do perigo do despenhadeiro, um jovem que se preparava para saltar. O carro de polícia parou e o policial à direita pulou para agarrar o jovem; mas o fez no instante em que este saltava, e acabou sendo carregado pelo outro; o segundo policial chegou a tempo de puxar os dois.
Você se dá conta do que subitamente aconteceu àquele policial que quase morreu junto com o jovem desconhecido? Tudo o mais em sua vida foi esquecido – seus deveres para com a família, seus deveres para com o trabalho, seus deveres para com sua própria vida – todos os seus desejos e esperanças em relação à vida simplesmente tinham desaparecido. Ele estava a ponto de morrer.
Mais tarde, um repórter lhe perguntou: “Por que você não o deixou cair? Você teria morrido com ele”. Sua resposta foi: “Não podia. Se tivesse deixado aquele jovem cair, não poderia viver nem mais um dia da minha vida”. Como é possível?
A resposta de Schopenhauer é que tal crise psicológica representa a abertura para a consciência metafísica de que você e o outro são um, de que você é dois aspectos de uma só vida, e que a sua aparente separação é apenas resultado do modo como vivenciamos as formas, sob as limitações de tempo e espaço. Nossa verdadeira realidade reside em nossa identidade e unidade com a vida total. Esta é uma verdade metafísica, que pode surgir espontaneamente em circunstâncias de crise. Pois esta é, de acordo com Schopenhauer, a verdade da sua vida.
O herói é aquele que deu sua vida física em troca de alguma espécie de realização dessa verdade. A idéia de amar seu próximo é pôr você em sintonia com esse fato.”

